07 agosto 2009

“Lei antifumo dissemina a doença do autoritarismo”

Jornalista e professor de jornalismo, Marco Antonio Araujo abriu, três anos atrás, o Barão da Itararé, um bar na esquina das ruas Peixoto Gomide e Itararé, em São Paulo. O nome do bar presta homenagem ao jornalista Aparício Torelly (1895-1971), criador do personagem Barão de Itararé, famoso pelo jornalismo político temperado com humor e ironia. Um dos motes do Barão, que inspira o dono do bar, era: “Viva cada dia como se fosse o último; um dia você acerta”.
Atendendo a um pedido deste blogueiro, seu amigo de longa data, Araujo enviou um texto sobre a lei antifumo, aprovada pelo governo de São Paulo. Enquanto aguarda alguma liminar que suste a entrada em vigor da lei, critica o que, a seu ver, mostra o autoritarismo da nova legislação.
Marco Antonio Araujo

A lei antifumo a ser implementada no Estado de São Paulo combate um vício terrível, mas dissemina uma doença ainda mais grave, a do autoritarismo. E precisa ser combatida. Assim como a lei seca, já desmoralizada pelos seus excessos, a campanha segregacionista contra os fumantes serve para tornar nossa sociedade mais conservadora, careta e depressiva.

A diferença é que a guerra contra o tabaco terá fiscais mais eficientes que o poder público (e suas blitz tão espetaculares quanto efêmeras). O não-fumante poderá agora exercer sua notória intolerância sob o respaldo de normas higienistas que desconsideram conquistas seculares da democracia e seu direito das minorias.

A questão é muito simples. O cigarro é uma substância legal e seu usuário não pode ser submetido a constrangimento ou tratamento discriminatório, não pode ser jogado numa calçada, ao relento, exposto a uma condição humilhante. Nenhuma regra pode exterminar o direito do convívio social a qualquer que seja o grupo, a origem ou a preferência.

Não se vê mais viciados que se atrevam a acender cigarros em hospitais, filas de banco, supermercados ou elevadores lotados. Nesse ponto, houve uma ação civilizatória, justa e irreversível, que retirou os fumantes dos devidos lugares. Afinal, são ambientes públicos em que não se escolhe estar. Nesses locais poderia ser permitido até que dependentes químicos de nicotina fossem açoitados ou empalados. Ninguém reclamaria.

Só que essa lógica não se aplica a um bar, um restaurante, uma casa noturna. Vamos a esses lugares, e os escolhemos entre milhares de opções, à procura de diversão, convívio, relaxamento. Muitos restaurantes e pizzarias optaram por proibir o uso de cigarros em suas dependências e se deram muito bem. Mas por que um empresário não pode pagar seus impostos e abrir um pub ou uma choperia em que o fumo seja tolerado? Entra quem quer. Um não-fumante simplesmente não é obrigado a entrar em uma boate em que o cigarro seja aceito. Ele que freqüente outro cabaré.

As estatísticas mais alarmistas dizem que apenas 25% da população é fumante. Por que essa maioria arrebatadora de 75% até hoje não conseguiu expulsar o fumo e a bebida de ambientes festivos e de descontração? Porque Baco é um deus mais conhecido que Apolo, embora menos poderoso. Mesmo as pessoas completamente saudáveis gostam de freqüentar ambientes criados por aqueles que cantam, dançam, brindam e aspiram à raça humana. Evoé.

Mas, na falta de um inimigo comum, já que comunistas e fascistas encontram-se soterrados pela história, nada melhor que oferecer em holocausto os rebeldes subversivos que insistem em dar baforadas alegres e suicidas. Depois que forem extirpados, que venham os obesos, os poetas e os devassos.

As autoridades são muito cínicas quando alegam ser esta uma questão inadiável de saúde pública. Não é razoável ignorar que sejam alarmantemente nocivos a fumaça e os gases cancerígenos emitidos pelos milhões de veículos que circulam em nossas ruas. Estes não mereciam uma ação mais urgente dos nossos governantes? Como automóveis não são seres humanos, fica mais difícil combatê-los. Só pode ser isso.
Mauricio Stycer

Em particular...

Por mais que hoje eu seja “absorto” do hábito de fumar, é cada um com o seu cada um, já que vivemos em uma sociedade democrática e civilizada, e de livre “conduta” por que então esta balela? O cidadão quer fumar? Ok! Mas e o não fumante? Uai amigo, antigamente não eram inteligentes o suficiente para criar espaço para brancos e negros? Gays e não gays? Obesos e não obesos? Filas para gestantes idosos e pessoas “normais”? Espaços para aidéticos e não aidéticos em hospitais? Por que então não se cria ambientes para as mesmas pseudo-socializações só que para fumantes e não fumantes? Já pensou? Duas boates, café-cancun fumantes /café-cancun não fumantes e por ai vai...

Aqui se planta aqui se colhe!

Um comentário:

janaina disse...

As idiossincrasias da vida cotidiana nos levam a ter esse tipo de embate desnecessário. Já sabemos que - no final das contas - o que rege de maneira quase ideal a vida é mesmo o bom senso.
Explico-me: assim como temos que respeitar nosso pares não fumantes, gostaríamos de ser respeitados também... Usa-se o bom senso para não fumar em locais fechados, em filas, em restaurantes e onde não é permitido... No mais, deixe-nos em paz! Afinal pagamos impostos tanto quanto aos outros cidadãos, e ainda temos - COMO TODOS OS CIDADÃOS - direito de frequentar ambientes comuns.

Ou se afastem de nós! Se conseguirem... Pois somos mais divertidos, extrovertidos e adoramos a vida! mesmo que ela seja encurtada.